A cidade em que tudo está à distância de 15 minutos
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A cidade em que tudo está à distância de 15 minutos

De mãos dadas com a tecnologia, Carlos Moreno pensou uma cidade feita de mobilidade verde e em que tudo está próximo.

10 de janeiro 2022

Se não queremos passar tanto tempo no trânsito, precisamos de estar perto. Tão perto que possamos ir de bicicleta ou a pé e chegar ao destino em 15 minutos ou menos. A “Cidade dos 15 minutos” pode resumir-se assim. É uma ideia simples, que está a conquistar apologistas das smart cities um pouco por todo o mundo e faz das relações interpessoais e locais o centro da vida urbana. Para isso conta com inovações como o 5G. “As tecnologias são hoje importantes ferramentas para espalhar a proximidade feliz pelas cidades”, afirma Carlos Moreno, o pai deste conceito.

Propor uma “proximidade feliz” no mundo atual, feito de cidades e megacidades, exige mudanças significativas nos mapas e planeamentos urbanos. “A cidade dos 15 minutos é um conceito que reduz o tempo das viagens dentro das cidades. Queremos acessibilidade com emissões de carbono reduzidas, a pé ou de bicicleta, para as seis funções urbanas essenciais: viver, trabalhar, comprar, cuidar, educar-se e divertir-se”, explica o urbanista Carlos Moreno.

Bairros multifuncionais

A ideia de “centro da cidade” torna-se obsoleta quando tudo o que alguém precisa para cumprir estes propósitos está no seu raio próximo. A cidade policêntrica é o objetivo e cada bairro ou freguesia é o cerne da solução. Cada um destes pólos deve ter escolas, hospitais e centros de saúde, todo o tipo de comércio e atividades culturais e de lazer. Para isso, há que aproveitar ao máximo cada metro quadrado, encorajando “várias funções para o mesmo edifício, uma cidade multifuncional que optimiza infraestruturas e melhorar a qualidade de vida através da exploração de proximidades”, continua o urbanista que tem trabalhado com a câmara de Paris para transformar a cidade.

Um exemplo desta multifuncionalidade dos edifícios está precisamente na capital francesa onde os recreios das escolas estão hoje abertos à comunidade durante os fins-de-semana para todo o tipo de atividades culturais, mercados ou atividades desportivas. Estes programas de lazer que levariam os vizinhos da escola para outras zonas da cidade, estão assim mais perto das suas casas, à distância de 15 minutos a pé.

O poderoso aliado: o 5G

A pandemia da Covid-19 veio mostrar o que este urbanista já defendia: é possível que também o trabalho seja relocalizado, para evitar viagens demoradas e movimentos pendulares que criam trânsito e poluição. “Isto é um novo ritmo”, considera Carlos Moreno, “porque podemos combinar o trabalho remoto com a presença física, o que é uma alavancagem poderosa para transformar a proximidade. Penso que o trabalho descentralizado já é hoje uma boa forma de viver de maneira diferente nas cidades e será nos próximos meses e nos próximos anos.”

Este futuro de conectividade e hiperconectividade é já o presente e, com o 5G, a vivência de uma “proximidade feliz”, pode ser exponenciada nas smart cities. “A tecnologia 5G é uma aliada muito poderosa. Podemos propor nas diferentes vizinhanças serviços remotos como a educação, entretenimento, serviços médicos, trabalhos remotos, teleconferências. Com o 5G, por exemplo, podemos desenvolver plataformas digitais que alojem diferentes serviços, como a partilha de bicicletas. Temos a hipótese de propor a partilha de bicicletas, porque as novas tecnologias dão-nos a possibilidade de alojar estes serviços com excelente qualidade”, diz Carlos Moreno, que vê a evolução tecnológica como um dos fatores que diferenciam a presente geração das anteriores, no alcance de uma vida urbana de proximidade. “As novas tecnologias como o 5G são ferramentas poderosas, não são o objetivo. São ferramentas poderosas”, sublinha.

Mobilidade cada vez mais suave

Numa cidade onde tudo está perto, o carro será dispensável. Há várias razões, segundo o pai da Cidade dos 15 Minutos, para que as cidades abandonem o carro. A mais premente são as alterações climáticas. “Hoje não temos escolha para as nossas cidades. O futuro tem de ser totalmente sustentável — sem carbono, com ruas calmas, áreas pedonais, implementando atividades humanas”, reitera.

Por outro lado, o urbanista associa diretamente a ausência do carro e do trânsito a um novo estilo de vida citadino em que as relações interpessoais são fundamentais: “Podemos criar uma sociabilidade mais forte, relocalizar a economia nas freguesias e ter um importante compromisso dos cidadãos em cada bairro”.

A mobilidade suave, feita a pé, de bicicleta (elétrica ou não) é, nesta proposta, o elemento de união da urbe. “Temos de mudar o ritmo das cidades, precisamos de ruas calmas para desenvolver áreas pedestres, para desenvolver ciclovias protegidas, precisamos de encorajar a mobilidade com emissões reduzidas de carbono para ter estas cidades vibrantes e construídas em proximidade”, diz Carlos Moreno.

Os objetivos deste novo conceito urbano precisam, no entanto, de um forte comprometimento do poder local e dos cidadãos, avisa o seu ideólogo: “Precisamos de transformar o nosso estilo de vida urbano e de transformar os usos e serviços de cada nós na cidade”.

O que está a acontecer em Paris?

Urbanista e professor da Sorbonne, em Paris, Carlos Moreno nasceu na Colombia e está há 20 anos na capital francesa. É a partir daí que está a mostrar como uma cidade com poucos automóveis e emissões de carbono não é apenas uma teoria ou uma utopia. A Câmara de Paris fez nos últimos anos várias mudanças estruturais no trânsito e na organização da cidade que fazem dela a bandeira da Cidade dos 15-minutos. “Em Junho de 2021, a câmara de Paris lançou um ambicioso mapa para transformar a cidade com o lema "a cidade dos 15 minutos em Paris é o Big Bang de proximidades", conta Carlos Moreno, que tem sido o guia destas alterações.

Até Junho de 2021 já muito tinha sido feito nesta capital europeia para um maior investimento na proximidade. Além de abrir os recreios das escolas à população em geral, a câmara de Paris comprou dezenas de milhares de lojas e abriu concursos públicos para que fossem ocupadas com os serviços e comércio que faltavam em cada bairro. Assim garante-se que cada arrondissement tem um talho, uma livraria ou um cabeleireiro.

As atividades culturais também estão a ser levadas a cada bairro, como aconteceu durante o verão, quando a Câmara promoveu eventos culturais por toda a cidade. “Em vez de irmos aos eventos culturais, os eventos vêm até nós, no bairro”, resume Carlos Moreno.

O orçamento participativo, que na capital francesa atinge os 800 milhões de euros por ano, também faz parte do desenvolvimento deste conceito urbano, em que deve haver uma ligação efetiva entre a comunidade e as políticas. O objetivo é “encorajar projetos locais que desenvolvam atividades em ruas ou praças, implementar comércio local e desenvolver um urbanismo tático.”

Perante todas estas ações, a mais impactante é, porém, aquela que está a acontecer nas praças e nas estradas da capital francesa. Algumas das mais importantes praças e avenidas passaram a ter apenas uma via para carros, encheram-se de árvores, e há ruas onde só podem andar peões e bicicletas — é possível fazer 1000 km em ciclovias protegidas dentro de Paris. Carlos Moreno é claro: “A cidade de Paris está completamente comprometida com a restrição do centro da cidade aos carros a combustível e com a reconquista do espaço urbano para a vida urbana.”

Qualquer cidade pode ser assim?

A Cidade dos 15 minutos parece uma ideia simples, mas é tão revolucionária para as cidades como as conhecemos que Carlos Moreno tem viajado pelo mundo todo para a explicar em palestras e conferências, para inspirar pequenas e grandes salas, na comunicação social ou em pequenas associações locais. “Fico feliz ao observar a importância das discussões em diferentes cidades europeias sobre este conceito. Por exemplo, a rede global C40 Cities, que está totalmente comprometida com a luta contra as alterações climáticas, adotou a cidade dos 15 minutos como orientação para o presente e para o futuro das cidades. Várias cidades na Europa — em Itália, no Reino Unido, Irlanda, Paris, claro, Espanha — adotaram esta ideia para transformar a vida urbana”, diz Carlos Moreno.

Em Portugal, “espero que, depois das eleições autárquicas, os novos presidentes de câmara se envolvam na transformação das cidades com esta proximidade feliz”, declara o professor que, no contexto nacional, mantém uma atenção particular a Lisboa, “uma capital europeia incrível, viva”, descreve.

“Precisamos de implementar em cidades como Lisboa uma nova política para ter ruas calmas, mobilidade verde, ciclovias protegidas, zonas pedonais gigantes. Em Lisboa é preciso, em particular, resolver o trânsito para evitar os engarrafamentos. É preciso ter um novo plano macro para a mobilidade e para transformar os acessos, para oferecer aos ciclistas infraestruturas muito, muito seguras e eficientes, porque sem esta mudança para a mobilidade verde é impossível transformar uma cidade numa cidade dos 15 minutos”, sustenta.

A visão de uma cidade próxima e verde é aliciante, mas a mudança requer coragem e Carlos Moreno frisa-o: “Precisamos de desenvolver um ambicioso mapa, porque a Cidade dos 15 minutos não é varinha mágica. É uma viagem, uma viagem fascinante para desenvolver um novo modelo urbano.”

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