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Cirurgia robótica à distância: com o 5G é uma realidade

Prokar Dasgupta, um reconhecido especialista em cirurgia robótica, afirma que o 5G terá um papel central para que um cirurgião remoto veja e sinta um paciente como se estivesse ao lado dele.

20 de junho 2022

Um dos maiores especialistas mundiais em cirurgia robótica à distância aponta o 5G como uma ferramenta indispensável para que um cirurgião remoto possa ver, operar e até tocar no doente que está a milhares de quilómetros de distância. Para Prokar Dasgupta, académico, cirurgião no Reino Unido e perito em cirurgia robótica, a rede de quinta geração prepara-se para democratizar esta forma e tendência da cirurgia robótica. Nas unidades de investigação já se começa a pensar no 6G.

Prokar Dasgupta é professor de cirurgia da London Clinic e da King’s Health Partners, especialista em urologia, e um dos poucos médicos e académicos que estão a traduzir os mais recentes avanços tecnológicos em prática clínica real. Dasgupta está há 20 anos na área da cirurgia robótica mas ainda se sente um “miúdo numa loja de doces”, sobretudo porque está a sentir o futuro a acontecer nas suas mãos — literalmente.

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Uma operação sem cortes e de alta precisão

Em 1988 aconteceu a primeira cirurgia robótica, isto é, uma intervenção médica minimamente invasiva em que são usados dispositivos robotizados controlados por um cirurgião. Desde aí muito mudou. “Estou nesta área há 20 anos e, quando comecei, a operação robótica era 1% das operações ao cancro da próstata. Hoje é 94%. Neste período tão pequeno de tempo mudámos completamente a forma como esta operação acontece”, conta Prokar Dasgupta.

As operações robóticas são hoje largamente utilizadas porque tornam cada procedimento mais preciso e encurtam o período de recuperação do doente. Dasgupta dá o exemplo da operação ao cancro da próstata. “Há 20 anos, eu faria uma grande cicatriz na barriga (o que libertaria muito sangue) e poria as minhas mãos na glândula para tirar a massa cancerosa. Agora não é nada assim. Fazemos seis pequenos buracos na barriga e ligamos o doente a um robot. O robot tem punhos muito pequenos, com 7 milímetros — é do tamanho de uma unha. Cria uma visão 3D que é amplificada, pelo menos dez vezes, portanto a próstata, que é do tamanho de uma avelã, fica a parecer uma bola de futebol e consigo vê-la claramente.”

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O 5G transforma a distância em tempo real

Se este tipo de cirurgia é já o presente, a tendência no campo da saúde aliada à tecnologia é fazê-lo remotamente, dando acesso internacional a médicos especialistas mais conceituados ou em zonas onde não existe o domínio de determinada especialidade por parte dos médicos locais. Há desafios por ultrapassar neste campo, como a criação de uma realidade sensorial que permita ao cirurgião remoto ter o quadro rigoroso do doente em tempo real.

“O cérebro humano, normalmente, lida com um delay de 10 milisegundos”, começa por explicitar Dasgupta, referindo-se ao tempo que está entre o acontecimento de alguma coisa e o reconhecimento desse acontecimento pelo cérebro humano. Os 10 milissegundos são o tempo de latência impercetível ao cérebro. No entanto, as transmissões de dados em longas distâncias aumentam estes valores para níveis que podem comprometer uma operação. “Se eu fizer um movimento de corte em Londres e esse movimento acontecer muito depois em Los Angeles, eu não tenho controlo sobre o trabalho. Qualquer delay acima dos 100 ou 150 milissegundos começa a causar problemas”, diz Dasgupta.

Com a grande capacidade de transmissão de dados e baixa latência, a aproximação do delay aos 10 milissegundos é uma das possibilidades do 5G. “Nos laboratórios já se está a olhar para o 6G”, refere o especialista, apontando para a potencial capacidade da sexta geração reduzir ainda mais este delay. Mas esta não é a única porta que o 5G abre para a cirurgia robótica remota. Há novos robots potenciados pela quinta geração de rede, que permitem aos médicos usar o tato e sentir o doente que está noutro país ou continente.

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Sentir o doente a milhares de quilómetros

“O toque é muito importante quando estamos a fazer uma cirurgia. Isto está amplamente em falta na maioria dos robots — é uma das desvantagens destes aparelhos.” Os robots de que Dasgupta fala são de realidade mista, ou seja, permitem a um cirurgião remoto ver o paciente em cirurgia e receber feedback da equipa local. Um dos exemplos mais comuns desses robots são os óculos Hololens, da Microsoft. No entanto, falta-lhes esse sentido essencial ao médico-cirurgião: o toque.

O robot revolucionário que vai adicionar o toque a cirurgias robóticas à distância é uma luva que Dasgupta já testou em modelos com excelentes resultados, diz. “Com estas luvas podemos fechar os olhos e sentir uma simulação de chuva a cair nos nossos dedos — é um exemplo do quão precisa esta luva é”, afirma. A aplicação prática desta luva digital aliada ao 5G cria um cenário com muito mais informação sobre o paciente para o cirurgião remoto.

No órgão do paciente a operar é colocada uma pequena e fina pinça com sensores, desenvolvida e patenteada pela equipa de Dasgupta, e, à distância, o médico usa a luva que lhe passa sensações de peso ou textura para as mãos. “Imaginem que conseguimos sentir o interior do paciente sem fazermos um corte. Mas isto não vale de nada se não conseguirmos ter um sentido de tempo real de toque, sentido e presença.”

Com o 5G, torna-se possível o real-time slicing, isto é, a convergência para o mesmo momento e lugar remoto do sentido de toque e as imagens de realidade mista. Tudo isto faz da cirurgia robótica à distância uma possibilidade com excelentes resultados, da mesma forma que os exames à distância e as teleconsultas com o uso da realidade aumentada já o são.

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Desafios e benefícios sociais

Para Dasgupta, há ainda algumas mudanças e evoluções a serem feitas antes da generalização da cirurgia robótica remota. Antecipa futuras questões legais e éticas já que as leis podem ser diferentes no país do paciente e no país onde o cirurgião remoto comanda o robot — por exemplo, quem terá a responsabilidade final pelo doente?

Também é preciso investimento em educação, investigação e equipamentos: Dasgupta nota que, por não haver orçamentos ilimitados nas instituições médicas e académicas, este pode ser um entrave. Por último, a mentalidade dos médicos, ainda muito presa a uma prática clínica presencial, precisa de mudar, afirma.

“Muita desta tecnologia permanece em laboratórios e só algumas pessoas estão a traduzir isto em prática clínica real”, resume Prokar Dasgupta, uma dessas pessoas. Mas os próximos tempos enchem-no de esperança. “O 5G vai ser muito mais do que ter um telemóvel. Os benefícios sociais vão ser significativos.”

Além de mais ecológica — já que não implica deslocações — a cirurgia robótica remota será mais barata do que uma viagem e estadias transatlânticas, exemplifica o cirurgião, e a recuperação será facilitada. “Há menos sangue, menos dores e os pacientes ficam no hospital por um período mais curto. Resumindo, a recuperação tem melhores resultados”, conclui o especialista em cirurgia robótica.

Isto significa que os cuidados de saúde, particularmente para os casos mais raros e complexos, vão generalizar-se. “Acho que a cirurgia remota é extremamente revolucionária e democrática para qualquer pessoa no mundo a quem não seja acessível o melhor cuidado de saúde no local”, reitera Prokar Dasgupta, que acrescenta com confiança: “o 5G tem um papel central nisso”.

O impacto do 5G na saúde é, como mostra o professor Dasgupta, extremamente positivo e será uma realidade em pouco tempo. O 1º Hospital 5G em Portugal é uma prova disso mesmo.

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